Angoche - Conclusões
"CASO ANGOCHE" - AS CONCLUSÕES
O fim do 'mistério' e dos enigmas do que sucedeu com o navio Angoche e a sua tripulação, desaparecida para sempre desde 1971.
Apresentamos hoje, devidamente estruturada, A CONCLUSÃO: OS VERDADEIROS PROPÓSITOS DA 'OPERAÇÃO ANGOCHE':
1. A CARTADA ESTRATÉGICA DA 'DEFESA DA ROTA DO CABO' E ‘SUB-CONTINENTE’ AFRICANO
2. CARTADA REGIONAL A TENTAR CONTRARIAR O BLOQUEIO BRITÂNICO À RODÉSIA FEITO AO PORTO DA BEIRA
3. CARTADA LOGÍSTICA PARA REEQUIPAR EM FORÇA AS MARINHAS PORTUGUESAS E SUL-AFRICANAS
4. DEMONIZAR OS INIMIGOS: CHINA, URSS, TANZÂNIA E FRELIMO, e a ARA/PCP
Hoje, podemos afirmá-lo, o enigma, o 'mistério', chegou ao fim.
Custa dizê-lo, mas o 'Angoche' foi uma operação de dentro, uma operação 'false flag' como hoje se diz. E não, não são 'teorias da conspiração'. Sintetizamos o que explicamos no livro.
Quem em Portugal planeou, executou, e ocultou a autoria do ataque terrorista ao navio Angoche nas costas de Moçambique em 1971?
Esta é a crónica de uma investigação. O presente livro desvenda o enigma. E outros mistérios, que correm ainda neste Portugal contemporâneo a par do ‘caso Angoche’:
AGINTER-PRESS - a ‘outra PIDE’ - agência de espionagem e de mercenários vertente portuguesa da Operação Gládio ‘filha’ da NATO e da CIA
O enigmático Mr. HERBERT LESTER - agente secreto e conselheiro de Salazar
A rede de JORGE JARDIM - o ‘Lawrence d’ África’
‘Conde de Pavullo’ - o patriarca ZOIO - e uma teia lusa de ‘mercadores da morte’
*
OS FACTOS:
Moçambique, 23 de Abril de 1971, sexta-feira à noite...
O navio português Angoche é atacado, incendiado. Por quem? Os ocupantes, 23 elementos da tripulação e um passageiro, desapareceram todos. O Angoche está deserto.
Dois dias depois, ao entardecer de domingo, 25 de Abril de 1971, uma mulher portuguesa de um bar de alterne é 'suicidada', atirada do 5º andar de um prédio da cidade da Beira, o ‘Miramortos’. Um mistério ligará os dois casos?
Nunca apareceu nenhum dos homens do Angoche, vivos, mortos, ou quaisquer despojos. Um X-files, autênticos ‘ficheiros secretos’ à portuguesa.
Sabemos quem são, e apontamos agora os responsáveis.
CONCLUSÃO: OS VERDADEIROS PROPÓSITOS DA OPERAÇÃO ANGOCHE
1. A CARTADA ESTRATÉGICA DA 'DEFESA DA ROTA DO CABO' E ‘SUB-CONTINENTE’ AFRICANO
2. CARTADA REGIONAL A TENTAR CONTRARIAR O BLOQUEIO BRITÂNICO À RODÉSIA FEITO AO PORTO DA BEIRA
3. CARTADA LOGÍSTICA PARA REEQUIPAR EM FORÇA AS MARINHAS PORTUGUESAS E SUL-AFRICANAS
4. DEMONIZAR OS INIMIGOS: CHINA, URSS, TANZÂNIA E FRELIMO, e a ARA/PCP
*
1. A CARTADA ESTRATÉGICA DA 'DEFESA DA ROTA DO CABO' E ‘SUB-CONTINENTE’ AFRICANO
O Angoche surge como um acto a sensibilizar para o que se passa no Índico, ao largo das costas de Moçambique, entre o território português e Madagáscar: é a cartada psicológica da defesa da Rota do Cabo, a jugular do petróleo, ainda livre, uma vez que está já ameaçado o Canal de Suez pela instabilidade no Médio Oriente. Desde a Guerra dos Seis Dias em 1967 o Suez encontra-se encerrado, só reabrirá em 1975.
Brande-se todo o peso que isso representa para os interesses estratégicos sul-africanos, europeus e norte-americanos, também. Joga-se até com o ‘sentimento de culpa’ que recairá sobre os americanos se ficarem de braços cruzados.
É isto mesmo que o ‘lobby’ em Washinton vai atirar. Não se pode admitir a pirataria e a sabotagem nesta rota cada vez mais estratégica. E ainda, criar simpatias para a defesa da posição portuguesa tão mal-tratada nos arautos internacionais e com dificuldade em comprar armas.
O que fazer para sensibilizar e dinamizar os lobbies simpáticos à defesa desta 'África branca' em perigo de extinção? Mas onde está a pirataria e a sabotagem? Se não existe, cria-se. Demonizando-se ao máximo os inimigos do momento: a China, a Rússia, a Tanzânia e a guerrilha da Frelimo.
O ataque ao Angoche serviu perfeitamente este propósito. Congregar simpatias para um Portugal cada vez mais isolado. Mas, principalmente, cativar sectores ainda titubeantes do Ocidente a comprometerem-se logisticamente na defesa do Rota do Cabo e dos países da aliança ALCORA - Portugal, África do Sul e Rodésia - e facilitar o respectivo reequipamento bélico.
2. A CARTADA REGIONAL PROCURANDO CONTRARIAR O BLOQUEIO BRITÂNICO À RODÉSIA FEITO AO PORTO DA BEIRA
O Angoche torna-se pretexto para interpelar Londres - porque não está antes a sua armada a defender a rota do Cabo e as costas africanas contra a pirataria ao invés de estar com o bloquei oa porto da Beira.
Não destoando do que acima se disse e dando corpo a uma narrativa (des)informativa que preencheu esses dias em tal campanha sabiamente orquestrada, notemos o que está em causa como objetivo estratégico: a ‘defesa do Canal de Moçambique’, igualmente a da ‘Rota do Cabo’, mas também um movimento contra o bloqueio e sanções à Rodésia – um tema tão caro a… Jorge Jardim, precisamente, e à sua defesa dos interesses de Salisbúria.
O que se diz a páginas tantas de um apanhado de imprensa recolhido pela PIDE e sem grande preocupação em identificar devidamente as fontes (apenas ‘um locutor angolano’, embora a omissão possa provir da emissora britânica), no Vol. 2, folha 112 do Processo PIDE SC C1 (2) 17296 – ANTT (Torre do Tombo), num texto que é uma transcrição de um artigo da BBC, é isso mesmo, uma apologiaem levantar o bloqueio à Rodésia e a reforçar o caso a favor da vantagem de melhores serviços de patrulha pelas potências navais UK e USA na zona: ‘Já foi mencionado por um locutor angolano que se os destroyers britânicos no Canal de Moçambique não tivessem sido absorvidos pela tarefa de pararem todos os navios com petróleo para a Rodésia ao largo da costa de Moçambique, teriam talvez sido capazes de evitar o ataque ao Angoche’.
Em suma, engajar as potências ocidentais nesse objectivo estratégico, a defesa dos países ALCORA, África do Sul, Rodésia e Portugal.
A Rodésia é evidentemente outro dos entreténs de Jorge Jardim. Membro da ALCORA, dessa ‘aliança branca’. E também estado pária desde a UDI ou DUI, se quisermos, em português, a ‘declaração unilateral de independência’, à revelia da potência colonizadora, o Reino Unido, em 11 de novembro de 1965.
Como consequência enfrenta boicotes e sanções a que Portugal deveria também obedecer na sua aplicação, mormente na área de armamento e de produtos petrolíferos. Em teoria, pois como estado membro das Nações Unidas, Portugal devia obrigar-se a tal aplicação. Na prática, o que vemos é muito diferente.
Se a fortuna de Manoel Boullosa (Sonap, Sonarep, Bertrand, etc., etc.) também cresceu em parte graças ao tornear das sanções a Israel, conseguindo o galego fornecer petróleo a rodos ao estado judaico, em Moçambique seria Jorge Jardim aquele quem acorre em auxílio de Ian Smith da Rodésia. Jorge Jardim editaria a propósito o livro ‘Rodésia, o escândalo das sanções’. Dispôs-se a fazer a ponte no fornecimento de carburantes e outras matérias-primas, e de armamento, e os seus contactos também não são de desprezar. A África do Sul e os seus portos também ajudam, evidentemente, mas o porto natural da Rodésia era o da Beira, a poucas centenas de quilómetros da fronteira. Mas aí a armada britânica paira por perto instaurando um bloqueio e por vezes ameaça mesmo uma confrontação com as forças portuguesas.
3. A CARTADA LOGÍSTICA: REEQUIPAR EM FORÇA AS MARINHAS PORTUGUESA E SUL-AFRICANA
Favorecendo nesse esforço de reequipamento a adjudicação a Portugal da construção desses meios.
Quando o caso ‘Angoche’ se dá, Pieter Botha da África do Sul, ergue-se: ‘Já antes eu alertara!’ E acrescenta então este Pieter W. Botha, ao tempo ainda não primeiro-ministro sul-africano, mas ministro da Defesa no governo de John Vorster:
‘(…) Que é o tipo de ameaça à Rota do Cabo sobre a qual já havia alertado. É para protegê-la contra este género de ataques que queremos equipamento moderno para a nossa marinha de forma a assegurar que é total a protecção da Rota do Cabo’. (...) 'A África do Sul não tem um apetite insaciável no tocante a armamento, meramente pretende defender a sua própria liberdade e estar na posição de manter o seu lugar na mais importante rota marítima do Mundo’. Botha’, explica o jornal ‘Mercury’, de Durban, de onde as declarações são retiradas – ‘já o ano passado havia predito que o terrorismo não se confinaria a operações em terra’.
O Ministro da Defesa P.W. Botha preferiu que os navios fossem comprados a Portugal, pois apoiaria financeiramente um Portugal política e economicamente fraco. Portugal e África do Sul partilhavam interesses mútuos no subcontinente dentro do paradigma da Guerra Fria e como Angola e Moçambique ainda eram colónias portuguesas, a África do Sul via Portugal como um aliado em África.
Do ponto de vista da Marinha SA o número de embarcações era importante e enfatizaram que deveriam ser adquiridos pelo menos seis navios patrulha. Se seis navios estivessem disponíveis, na melhor das hipóteses dois em cada três navios poderiam patrulhar as costas leste e oeste da África do Sul a qualquer momento”.
http://www.ajol.info/.../sms.../article/download/81114/71336
Nas semanas seguintes, o ‘Angoche’ será brandido igualmente em Portugal como fator determinante para o reequipamento da Marinha de Guerra. Aconteceu em sessão parlamentar, pela voz do Almirante Reboredo e Silva:
O grave incidente ocorrido com o Angoche vem demonstrar a todos os homens conscientes deste país marítimo por excelência a necessidade imperiosa de possuir uma marinha de guerra que corresponda às responsabilidades pelo menos nacionais, e estas são só por si enormes na fase presente, mas são-no ainda em maior extensão, porque também temos responsabilidades internacionais, a que não convém eximirmo-nos.
Oxalá que os meios disponíveis permitam implantar sofrivelmente as medidas que terão de ser tomadas, pois o terrorismo no mar parece iniciado, e o Ministro da Defesa da República da África do Sul já a isso se referiu publicamente. E quanto a navios mercantes, presentemente, não será fácil diferenciar entre terrorismo e pirataria.
Neste momento julgo oportuno declarar a minha satisfação, e daqui felicitar o Governo pela promulgação do Decreto-Lei n.º 204/71, de 14 de Maio findo, concedendo o crédito julgado necessário para a construção de quatro corvetas tipo João Coutinho, com armamento e equipamento mais actualizado e poderoso.
Sei que o Tesouro está sobrecarregado com pesados encargos militares, mas, a meu ver, esta decisão é apenas uma achega para a solução do problema. De resto, esperei sempre que esta nova série fosse de seis e não de quatro navios, como, aliás, aqui tive oportunidade de declarar. Trata-se de unidades oceânicas muito económicas e com valor militar suficiente para satisfazer as nossas tarefas e missões, designadamente no ultramar.
4. A CARTADA EM TERMOS DE PROPAGANDA: DEMONIZAR OS INIMIGOS - CHINA, URSS, TANZÂNIA E FRELIMO, E A ARA/PCP EM PORTUGAL CONTINENTAL
Em termos de guerra psicológica a operação Angoche:
1) Congrega medos e sentimentos contra os inimigos tradicionais de Portugal, da Rodésia e da África do Sul,
2) Tenta trazer as potências ocidentais em apoio a estes territórios,
3) Internamente, reforça atitudes e sentimentos para neutralizar movimentos e quaisquer simpatias contra esses inimigos – a China, o perigo Amarelo, a URSS – os Vermelhos, e a Tanzânia (e a Zâmbia) por abrigarem os “terroristas” da Frelimo – o movimento africano que luta contra o governo português em Moçambique. E, em Portugal Continental, tenta-se colar o ‘Angoche’ à ARA – braço armado de certo modo do PCP. Se bem que espectaculares as acções da ARA procuravam não causar danos humanos.
***
DOS MEIOS
A Operação Angoche é desencadeada com meios operacionais locais e, provavelmente, navais sul-africanos, meios aéreos à disposição de forças não convencionais como os SEII - Serviços Especiais de Informação e Intervenção, elementos da PIDE e operacionais operando sob a alçada da Aginter-Press como Casimiro Monteiro e Orlando Cristina, todos estes cabendo na estrutura do eng.º Jorge Jardim.
Sendo a Aginter-Press, conforme se explica nas páginas deste livro, o ramo português de algo mais vasto, a operação pan-europeia Gládio, designação genérica, enquadrada pela NATO e pela CIA.
Assunto a desenvolver...















